Das coisas que não aprendi na vida e me rendem dores de cabeça ou de barriga:
Agir com discrição,
total discriminação
ou certa neutralidade.
Cortar direito a unha,
a franja, a insanidade.
Dançar lambada,
receber lambida,
fingir não estar comovida,
agradecida ou puta da vida.
Não aprendi a distanciar-me de quem enxerga-me a essência.
Não aprendi a pensar com paciência.
Não aprendi a ignorar uma porta entreaberta,
não suar o mais puro suor por carência ou depois do maior desabafo,
até hoje rendendo-me insônia, demência e fritadas bem loucas no asfalto.
Não aprendi a pagar duas vezes a dívida.
Não aprendi a esquecer a saída
ou a dor da ferida ardida, cicatrizada sozinha, calejada no sol todo dia.
Não aprendi a dizer adeus.
Não aprendi a viver só de deus.
Não aprendi a pensar só no meu... e isso já me fudeu!
Mas eu não aprendi, juro a deus que eu quis, mas não deu.
Não aprendi a ignorar a voz que me lança e me chama
pra pista, pra cena, pra rua, pra dança,
dizendo o que quer que eu diga
ainda sinto que sou tão menina
ou uma velha em mudança tardia.
Tudo isso eu só percebi
por estar assim tão feliz
em ter ganho a colher
de chá da mulher
que mudou minha vida
ao fazer entrevista
todo santo dia.
Quero que me olhe,
que cobre e insista
e me exija melhor
pra essa força que exige a subida
e também na coragem bem-quista, presente em cada descida.
Isso tudo me existe onde quer que eu exista e grita,
como aquela colher me gritava na vista:
-Me leva contigo, querida!!!
Pretendo aprender ou então conviver
e como a colher vou soltar o meu sumo no chá,
um adubo fazendo avançar
toda tal mulher que sabe que tem o poder de vencer
já por ser quem se é, tal mulher!
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